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12/11/2010 - 13h37
Fonte: Estado de Minas
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Depois de ser aprovado em dois testes de leitura e de escrita, o palhaço de 1,3 milhão de votos garantiu a sua diplomação de deputado federal. Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, teve de ler em voz alta e fazer um ditado de 17 termos, no qual ele escreveu errado a palavra “promulgação” e o gerúndio do verbo “trazer”.
No teste de leitura, o deputado mais votado do país gaguejou e chegou a suar. O juiz Aloísio Silveira entendeu que a situação causava nervosismo e constrangimento ao humorista e, ao provar que sabe ler e escrever, Tiririca foi dispensado.
Os testes aos quais Tiririca foi submetido eram uma exigência do Ministério Público, que denunciou o então candidato ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo antes mesmo das eleições de outubro. Segundo a denúncia, ele não saberia ler e escrever e o documento em que pediu o registro de candidatura caracterizaria um crime de falsidade ideológica.
O TRE não acatou a denúncia em um primeiro momento. No entanto, com a votação expressiva do palhaço, o juiz Aloísio Silveira resolveu conferir se ele, de fato, sabia ler e escrever.
Para enfrentar o teste, Tiririca foi submetido a aulas intensivas de leitura e de escrita. Quatro professores especializados em alfabetização de adultos se revezaram, aplicando aulas inclusive aos sábados e domingos.
Apesar de frisar que não era obrigado a comparecer ao teste, já que ninguém pode ser forçado a produzir provas contra si, Tiririca fez questão de passar pelo exame. “Vou fazer a prova tranquilamente para dar uma satisfação aos meus eleitores”, ressaltou o deputado eleito a um de seus assessores.
Apesar de ter passado nos testes, o processo movido contra Tiririca na Justiça Eleitoral continua tramitando por questões burocráticas. Falta ainda esclarecer quem escreveu à mão o documento protocolado no TRE.
O deputado já disse à Justiça que foi a sua mulher quem escreveu e ele só assinou a peça. No entanto, uma perícia provou que há três caligrafias diferentes no papel. “Quem escreveu não vem ao caso. O que importa é o conteúdo do documento e a assinatura”, alega a defesa do palhaço.
Aptidão
Assim que Tiririca fez o ditado, o presidente do TRE paulista, desembargador Walter de Almeida Guilherme, disse que ele está apto a ser diplomado, independentemente da decisão final do processo. No despacho do juiz que fez o teste, não consta de forma categórica que o deputado é alfabetizado, um conceito mais específico, pois exige que ele entenda o que leu.
Além do deputado e do juiz, estavam na audiência Ricardo Porto, advogado de Tiririca, e o promotor Maurício Lopes, que abriu o processo contra o palhaço.
No teste, ele teve de ler a manchete da edição de ontem do Jornal da Tarde, um periódico popular de São Paulo, além do começo da matéria. Como gaguejou na primeira leitura, Tiririca teve de ler o título e a abertura de outra matéria do mesmo jornal (veja quadro).
No outro exame, o presidente do TRE explicou que o ditado feito pelo deputado foi aleatório. O magistrado abriu o livro Justiça Eleitoral – uma retrospectiva, editado pelo TRE paulista em 2005, e leu a primeira frase de um texto intitulado
A Justiça brasileira pós-Estado Novo, de José D'Amico Bauab, mestre em direito pela Universidade de São Paulo (USP) e servidor do Tribunal de Justiça estadual. A frase diz o seguinte: “A promulgação do Código Eleitoral em fevereiro de 1932, trazendo como grandes novidades a criação da Justiça Eleitoral”. Nervoso, Tiririca escreveu bem devagar, mas logo depois saiu da sala com o polegar erguido em sinal de otimismo.
Promotor constrangido
Cara a cara na audiência, o promotor Maurício Lopes e o advogado de Tiririca, Ricardo Porto, cumprimentaram-se friamente. O primeiro acusou o segundo de “sordidez” por ter esperado os últimos 10 minutos do prazo legal para protocolar a defesa do palhaço. Lopes procurou a seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), que abriu processo contra o promotor.
Numa carta enviada para a OAB em que se desculpa a toda a classe de advogados, o promotor tenta explicar o que quis dizer: “Veja, uma coisa é reputar um comportamento hipotético, repetitivo e desrespeitoso para com a Justiça como ‘sórdido’. Outra coisa muito diferente é dizê-lo sobre pessoa determinada e fato concreto, o que jamais ocorreu”. (UC)
O teste do palhaço
Veja como foi a sabatina de Tiririca no TRE-SP
» O humorista teve de ler em voz alta perante um juiz uma manchete de jornal:
“Procon manda fechar loja que vende itens vencidos”
» Nessa primeira leitura, ele gaguejou. Mas o juiz entendeu que foi de nervosismo por causa da situação e pediu uma nova leitura. Dessa vez, leu o texto de abertura de uma reportagem:
“Medida inédita suspende as atividades de 11 supermercados da capital durante período de 12 horas. Segundo órgão de defesa do consumidor, a aplicação de multas não surtiu efeito, já que as lojas punidas são reincidentes na infração”
» Não satisfeito pelo desempenho de Tiririca, o juiz pediu que ele lesse o título de outra reportagem, essa sobre um documentário a respeito do
ex-piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna.
“Estreia amanhã o filme que homenageia o piloto brasileiro, relembrando os tempos de glória, as brigas com dirigentes, a rivalidade com Prost e um pouco da vida pessoal”
» No terceiro teste de leitura, Tiririca saiu-se razoavelmente, mesmo desempenho da prova escrita. A caligrafia do humorista é quase incompreensível de tão mal traçada. No ditado, o juiz leu pausadamente, em voz alta, a seguinte frase da página 51 do livro Justiça Eleitoral — uma retrospectiva:
“A promulgação do Código Eleitoral em fevereiro de 1932, trazendo como grandes novidades a criação da Justiça Eleitoral”. Tiririca escreveu as palavras “promulgação” e “trazendo” de forma errada.
Ullisses Campbell
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