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14/11/2011 - 23h27

Fonte: Estado de Minas

Eleitores pedem de tudo em e-mails enviados a deputados mineiros

No passado eram cartas, agora são e-mails, mas as demandas dos que escrevem aos deputados mineiros continuam as mesmas: emprego, bolsas de estudo, presentes e facilitações de todo tipo

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Eleitores pedem de tudo em e-mails enviados a deputados mineiros

"Senhor deputado, estamos passando dificuldades. Ajude meu filho a passar no concurso (...) isso fica entre eu, você e Deus." A súplica salta de uma das mais de 15 mil correspondências dirigidas semanalmente aos deputados estaduais.

Embora cada vez mais enviadas por meio eletrônico – e não no velho papel –, as mensagens dos eleitores aos deputados mantêm a marca registrada do patrimonialismo que as caracteriza desde sempre.

A máxima da cultura política brasileira – "resolva primeiro o meu, depois o nosso" – que historicamente impregna a prática de muitos políticos, ainda vigora forte no imaginário popular: "Pague a minha viagem de lua de mel", "venho lhe fazer uma solicitação: tenho um sobrinho que pretende estudar na escola Bernoli (…)", "ganhei uns ovos de avestruz de aniversário, preciso que me dê uma incubadora..."

Pedir favores pessoais aos representantes de cargos públicos está na cultura brasileira desde o descobrimento, afirma a historiadora Eliane Aparecida Carneiro Moreira. “Os remetentes são herdeiros de Pero Vaz de Caminha, que, ao final de seu famoso relato acerca do encontro de Portugal com Pindorama, pede a Vossa Alteza que lhe faça uma singular mercê: mande vir da Ilha de São Tomé o seu genro, Jorge de Osório”, afirma a historiadora.

“Outras cartas também estão destacadas na história, geralmente associadas a vultos políticos e são reveladoras dessa cultura”, acrescenta ela.

Não há, portanto, de se estranhar quando o João Anônimo ou a Maria do Povo se dirigem ao poder em cartas que expressam necessidades diversas e sugerem de comportamentos não recomendáveis a pedidos desesperados que retratam asfixia social, avalia Eliane. A cultura patrimonialista é assim: os problemas da casa – de natureza privada – transbordam para o espaço de representação pública.

No varejo, a diversidade de pedidos aos políticos é impressionante: bolsas de estudo, “um boizinho e uma vaquinha”, um “jeitinho na licitação para a concessão de casa lotérica”, viagens, material de construção, um carro. Teve um eleitor que pediu um automóvel, mas não se mostrou exigente: “Não precisa ser um carrão. Eu gostaria de um Chevette”, escreveu.

Com as caixas de e-mail lotadas, nove em cada 10 gabinetes da Assembleia Legislativa não processam nem arquivam as mensagens dirigidas aos parlamentares.

São eliminados, em média, 200 e-mails por dia em cada gabinete. Apesar do rico leque de necessidades individuais dos eleitores dirigidas aos deputados estaduais, de longe são as demandas por emprego as mais recorrentes.

São propostas que chegam por escrito, com espantosa naturalidade. O exemplo vem de cima, ninguém duvida, não apenas nas próprias casas legislativas, onde os deputados contam com gabinetes de tamanhos variados, contratando legalmente, sem concurso público, algumas dezenas de assessores.

Também no Executivo há uma vasta reserva de cargos comissionados destinados aos assessores, aos integrantes das campanhas, aos cabos eleitorais, aos apadrinhados e aos amigos e indicados por amigos em geral. "Todos ávidos de cargos. Bons cargos, naturalmente”, afirma a historiadora.

Ranking Depois de analisar e categorizar 46.156 correspondências entre 1999 e 2004, Eliane Aparecida Carneiro Moreira registra: quase um quarto delas – 10.636 – referia-se a pedidos diretos de emprego ou indiretos, do tipo solicitação de apoio para dar um jeitinho no concurso público: "Preciso ingressar meu filho nas fileiras da Polícia Civil ou Polícia Federal.

O meu filho prestou exame para a PM... Os pedidos que chegaram ao longo deste ano não são muito diferentes: empregos continuam no topo do ranking quantitativo dos pleitos apresentados.

Na dinâmica desta interação entre eleitor e parlamentar, em anos de eleições gerais o volume de pedidos invariavelmente aumenta, sustenta Eliane. "A campanha eleitoral é uma ocasião peculiar da relação entre eleitor e representante político.

O eleitor percebe o valor de seu voto e assume a sua expressão mais aberta e franca", avalia Eliane. Já o ano seguinte à eleição do candidato, na nova legislatura, é a hora de apresentar a conta aos eleitos pelo apoio, pelos votos “da família, que é grande”.

É assim que um eleitor escreve ao “seu deputado” reeleito, neste primeiro ano de legislatura: “Quando precisou de mim eu lhe servi. Votei no senhor. Minha família também. Agora, estou precisando de emprego e gostaria que arranjasse um para mim”.

Respostas Do outro lado do balcão, a reação dos parlamentares é diversa. Há aqueles com o mandato mais voltado para uma política assistencial, de atendimento de demandas das “bases”.

Os votos são amealhados no atendimento do varejo, por meio do qual se preservam os territórios. Campeão nessa categoria, o deputado estadual Zé Henrique (PMDB), herdeiro político do ex-deputado Zé Laviola, mantém um aparato para não deixar sem resposta os pleitos.

Há outros deputados que adotam o mandato voltado ao debate de grandes políticas públicas, com especial ênfase em certas categorias. É o caso por exemplo do deputado estadual Sargento Rodrigues (PDT), cuja carreira se fez na Polícia Militar.

“A maior parte dos deputados é pressionada para o clientelismo, numa relação de conivência com esta cultura de que o setor público deve atender as questões individuais”, afirma Sargento Rodrigues. “Essa relação de conivência entre quem pede e quem atende, porque no varejo ganha o apoio político, em minha opinião é uma relação perniciosa para a democracia”, afirma Rodrigues.

MAR E MARCIANO

Nem só de eleitores que se relacionam com o Legislativo para encaminhar pedidos pessoais vive a democracia brasileira. Sobretudo os e-mails encaminhados à Assembleia refletem um eleitor mais preocupado em defender tópicos de agendas públicas.

Em meio às propostas de intervenção em políticas as mais diversas – no campo ambiental, da saúde pública e da educação – há propostas inusitadas: negociar com a Bahia um trecho territorial que dê a Minas acesso direto ao litoral é uma delas. Houve ainda quem propusesse a criação em Varginha, no Sul de Minas, de uma embaixada para marcianos onde, nos anos 1990 e início da década passada, registraram-se estranhos relatos de ETs...

>> Cartas a deputados de 1999 a 2004

Como todo pai de família, há muito venho tentando realizar o sonho de sair do aluguel e construir a minha própria casa, conseguindo, assim, proporcionar mais conforto e segurança para meus familiares.

Na cidade onde trabalho e de onde sou natural, descobri, após consulta à prefeitura, um terreno do estado que se encontra abandonado há mais de 30 anos. Ficaria eternamente grato se o senhor encontrasse uma maneira que o Estado de Minas Gerais pudesse me doar ou vender(…)"

"Meu filho foi aprovado no concurso de motorista de veículos leves na prefeitura há quase um ano. Apesar de sua classificação confortável, estando em quinto lugar das 30 vagas, até hoje ele não conseguiu ser nomeado no cargo. Dado o exposto, peço-lhe sua grandiosa e possível ajuda”

"Tenho várias coisas para pedir ao senhor, mas sei que não poderia atender todos os pedidos. Então, vou lhe pedir uma coisa que eu sonho desde pequeno. Peço ao senhor um carro, mas não um carrão. Eu gostaria de um Chevette, qualquer que seja o ano."

"Estou lhe enviando esta carta e pedindo um pequeno favor. Sr. deputado, no dia 07.09.2003 foi realizado o meu aniversário e entre os presentes eu ganhei 10 ovos de avestruz. Então, eu gostaria que o senhor doasse para mim uma pequena incubadora para ovos de avestruz. Preciso aumentar a minha renda, pois sou casado e tenho 3filhos."

"Ao meu querido amado deputado (...), venho por meio desta carta agradecer por tudo o que Vossa Excelência está fazendo pelo povo mineiro. (...) Agora, quero fazer mais um pedido, na esperança de ser atendida. Ou seja, reforçando meu pedido, ajude-me a conseguir um emprego, pois breve vai sair o concurso (...). Será que com sua força não chegarei ao meu objetivo?”

>> Emails a deputados em 2011

"Senhor deputado, estamos passando dificuldades. Ajude meu filho passar no concurso (...) isso fica entre eu, você e Deus."

"Pela primeira vez acesso a caixa de entrada do seu e-mail. Na oportunidade, venho lhe fazer uma solicitação: tenho um sobrinho que pretende estudar na escola Bernoli – Belo Horizonte. Ele participou do processo seletivo e foi aprovado. Gostaria de saber se V.Sa. tem acesso a bolsa de estudo na referida escola.

Como deve ser do seu conhecimento, o valor cobrado na escola Bernoli é bem alto. (…) Quero na oportunidade convidá-lo para estar conosco na nossa fazenda, avisando com antecedência poderemos recebê-lo para um almoço."

"Em conversa com a esposa, procurando serviço alternativo para ajudar nas finanças do dia a dia, pensamos em tudo, bar, confecção, lanchonete, porém já se encontram instalados nesta cidade. Foi quando veio a ideia de tentar implantar uma unidade de loteria.

Então, fomos à luta e procuramos o gerente (de um banco), que relatou que todo o processo de implantação da lotérica é via licitação. Mas no momento não existe nenhum edital para a nossa cidade. Porém, o gerente nos confidenciou que com a ajuda de um político (deputado)…"

"Excelentíssimo deputado, quando precisou de mim eu lhe servi. Tenho uma família grande. Votamos no senhor. Agora, estou precisando de emprego e gostaria que arranjasse um para mim neste governo."

"Caro amigo e companheiro. Sei como o senhor é um homem bom e ajuda as pessoas da cidade com o serviço de matrimônio. Será que em vez de oferecer o vestido de noiva e o terno, o senhor poderia pagar a minha viagem de lua de mel? Pague a minha viagem de lua de mel, deputado. Aqui, todos votamos sempre no senhor…"

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