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Política: Eleições 2008 Assine Nosso Feed

19/10/2008 - 18h53

Fonte: G1

Vereadores 'campeões' de mandato acumulam décadas em câmaras

Em Votorantim, Labrego (PMDB) irá assumir 11º mandato. 'Trabalho com a porta aberta', diz João Dib (PP), eleito para 10º mandato.

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Vereadores 'campeões' de mandato acumulam décadas em câmaras

vereador Lázaro Alberto de Almeida, o Labrego (PMDB), jura que sua primeira candidatura, em 1965, foi a contragosto. Desmembrado de Sorocaba (SP), o distrito de Votorantim passaria a ser município e o nome do rapaz de 26 anos, que trabalhava como pedreiro e ganhava “uns trocados” para tocar em uma banda, acabou indo parar na lista de candidatos a vereador da nova cidade.

“Tinha que arrumar três eleitores de Votorantim para retirar a candidatura. Batia nas casas e eles falavam que não iam assinar. Fui no embalo”, conta. Embalo grande, por sinal. Não bastassem os dez mandatos na Câmara Municipal, Labrego vai encarar mais um a partir do próximo ano. Eleito com 1.036 votos, foi o quinto mais votado nesta eleições na cidade.

“Tem pessoas que já estão de bengalinha e continuam votando em mim. Eu brinco que, quando era jovem, as moças votavam em mim. Agora, aumentou minha votação porque, além das vovós, tem as filhas e as netas”, brinca.

'O eleitor já conhece a gente'

O caso de Labrego talvez seja um dos mais curiosos, mas não é o único. Enquanto as câmaras de vereadores vêem a estréia de novatos, outras assistem veteranos se eternizarem por meio das urnas. E, a cada campanha, dizem alguns, fica mais fácil.

“O eleitor já conhece a gente. Na visita, o cara já fala assim: 'nós temos obrigação de votar no senhor, fez isso pra mim, fez aquilo, sempre nos ajudou (...) É fácil'”, conta o vereador do município de Xambrê (PR), Trajano José da Silva (PMDB), de 66 anos, eleito nestas eleições para o oitavo mandato.

Para ele, o destaque de seus mandatos é o atendimento à população, principalmente com remédios e agendamento de exames e consultas. O segredo para continuar sendo eleito? Não “dar as costas” ao eleitor, diz Silva.

“Aqui, teve uma criança que nasceu com problema de saúde, terrível, o remédio dele custava R$ 5,4 mil. A mãe não conseguia comprar, ninguém conseguia. Eu saí, fui em uma secretaria de saúde, em uma regional, e consegui de graça. Ele tomou o remédio e está vivo, se tornou um cidadão brasileiro”, discursa.

Para o vereador de São Paulo Jooji Hato (PMDB), eleito para o sétimo mandato, se a experiência e o tempo ajudam, a convivência pode ser um fator de desgaste - e justamente por conta de pedidos de serviços que muitas vezes são de atribuição da prefeitura, não do vereador.

“À medida que uma pessoa pede uma coisa pra mim e eu não atendo, eu perco essa pessoa, não quer me ver na frente. Se vai bater na porta para pedir voto, a pessoa bate com a porta na cara da gente”, conta.

Sem comitê, mas com telefone na lista

Estar perto do povo e não colocar barreiras para antigos e futuros eleitores permite campanhas modestas. Ou vice-versa. "Não tenho comitê, cabos eleitorais, faço cartas, converso com as pessoas, sempre tenho o telefone na lista, sempre trabalho com a porta aberta. E atendo todos, até pra dizer não”, conta o vereador de Porto Alegre João Antonio Dib (PP).

décimo mandato, que começa em fevereiro do próximo ano, foi conquistado com poucos santinhos. “Quando ia ao supermercado, as pessoas pediam”, diz. Dib estima ter gasto não mais que R$ 100 mil. A maior despesa, cerca de R$ 40 mil, foi com a postagem de cartas. No texto, frases que usa há várias eleições. “Trabalho, experiência e verdade” e a saudação “saúde e paz”.

Mas o que mais ajudou mesmo foi a popularidade. “Não tem quem não me conheça. Como sempre, fui presente, não fiquei entre as quatro paredes fazendo projeto, sempre fui no local, fui de noite, de tarde, de madrugada, nos sete dias da semana, a população passou a ver o Dib como parte da cidade. Isso fez com que eu tenha sido eleito consecutivamente.”

Veteranos 'iniciantes'

Por mais que os ‘recordes’ de mandatos ajudem a cada nova eleição, contam os vereadores, cada nova disputa é também uma luta contra o discurso da concorrência, que clama pela renovação nas câmaras.

“A primeira eleição, falando em nível de Votorantim, é fácil ganhar. O povão vota na esperança de eleger um bom vereador, de atender as reivindicações. A segunda, e daí em diante, é que é difícil. Quando chega na campanha, ficam os candidatos na rua: ‘tem que renovar essa Câmara, chega, tem que tirar’. Não é fácil não. Se querem renovar com quem tem um mandato, imagina com quem tem dez? Querem mandar para o inferno, para a Nasa. Ser reeleito não é fácil”, brinca Labrego.

Para ele, o conceito de “renovação” é relativo. “A partir de janeiro, vou ser um iniciante igual aos outros. Tudo o que eu fiz até agora é passado. Tenho que fazer daqui para frente”, filosofa.

O vereador Jooji Hato diz que renovação é importante, mas afirma ser a favor de se manter as regras para a reeleição. “Acho que a renovação tem que ser feita, tirar o que não é bom, renovar com gente boa, de preferência, e competente, como eu também renovei. Quando cheguei [à Câmara] em 1982, tirei uma pessoa do lugar.”

Reeleição limitada

Renovação é o que propõe a PEC 56/2007, que tramita no Senado. De autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), a proposta quer acabar a possibilidade de reeleição consecutiva para presidentes, governadores e prefeitos e limitar a reeleição consecutiva a apenas uma para deputados, senadores e vereadores.

“Quando a pessoa é reeleita por mais de uma vez, ela pode ficar viciada. O ideal é que o político seja uma função e não uma profissão”, diz o senador. A proposta está na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) desde julho de 2007.

O cientista político Rogério Schmitt, da Tendências Consultoria, diz que as taxas de reeleição no Brasil são menores se comparadas com alguns países e que há pontos positivos na reeleição de parlamentares.

“Uma das habilidades políticas mais importantes que um deputado, que um senador precisa ter é conhecer o regimento da Câmara, do Senado, saber como as coisas funcionam, as comissões, o plenário, as bancadas dos partidos. Se você limita em dois mandatos, começa a tirar do Congresso os deputados mais experientes. Fica um excesso de calouros que vão passar por um período de adaptação, vão conhecer muito pouco sobre o funcionamento do Congresso. Isso pode afetar a produtividade legislativa, tornar mais fácil ainda a vida que o governo costuma ter com o Congresso, de sempre conseguir aprovar seus projetos”, opinou.

Maria Angélica Oliveira

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