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Caio Martins

Editor e produtor gráfico, participou da resistência ao regime militar, foi exilado político, correspondente e jornalista da Rádio Berlim Internacional. Trabalha com edições técnicas e assessoria parlamentar. Mantém o blog literário "Poemas e Crônicas", dentre outros.Publica matérias autorizadas pelos autores nesta coluna. No VB desde 2005.
21/07/2010 - 23h40
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Em entrevista dia 21 de julho a Adriana Araújo, da TV Record, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou uma preocupação insólita: que fazer no dia 02 de janeiro de 2011, estando apenas com Dª. Marisa em casa, São Bernardo do Campo, de vez que os filhos têm suas próprias famílias e caminhos.
Durante oito anos o Presidente conseguiu evitar impeachment nos inúmeros casos de corrupção dos aloprados, passou feito bagre ensaboado por acusações, denúncias, manobras para enfraquecê-lo ou assumir poderes totalitários, enfim: soube contornar cada pancadaria e safar-se tanto do fogo cerrado de adversários quanto do “fogo-amigo” dos setores mais ideologizados e/ou predadores de seu partido e aliados.
Ainda meteu-se em muitas saias-justas, como o caso da mediação do imbróglio atômico do Irã, definida pelo seu brilhante Ministro de Relações Exteriores Celso Amorin com a frase “- Queimamos o dedo...” Bom, há que ver, Ministro, sempre onde mete o dito cujo. E a frustração de não ter podido levantar a taça da Copa do Mundo na África... a seleção mercenária, verdadeira legião estrangeira, estragou-lhe o prazer antecipado.
Perguntado se teve sorte, o Presidente afirmou que ninguém quer saber de azarados, e confirmou que o sucesso de seu governo na área econômica tem raízes antigas, de D. Pedro I a FHC, declarando ainda ter errado ao batalhar contra projetos do último, como no caso do Real e suas derivações. Foi honesto. Lula, quando o “caboclo-presidente” é chamado para Aruanda, é ótimo.
Carregará um mérito absolutamente indiscutível: não aceitou tornar-se um tiranete de opereta da vida, pretensão do setor radical-top-top de seu partido, agiu com prudência e luz própria e entrará (ao menos por enquanto) para a história deste país como um Presidente democrático. Não como um ditador. Não serão nestes próximos cinco meses que projetos para calar a imprensa, amordaçar o judiciário, destartalar o Congresso e legitimar a ação de temerários invasores de propriedades terão alçada, rumo ao desgoverno de partido único.
Mesmo no episódio do Irã e outros envolvendo personalidades sombrias do momento histórico atual, houve ganho relativo para o Presidente: peitou - em português - alguns dos países mais poderosos e demonstrou claramente que “O escolhido” Obama não mudou absolutamente nada na forma dos Estados Unidos tratarem a periferia (Nós!). Na Matrix ianque ninguém consegue desligar os cabos da prepotência congênita. Disse ainda na entrevista que errou muitas vezes nos oito anos de governo, mas podemos corroborar que só não erra quem não faz.
Porém, e agora (ou daqui uns meses), Lula? Acabar-se-ão os puxa-sacos institucionais e operacionais, não terá mais que gritar ou brigar com ninguém por terem pisado na jaca, medir palavras e palavrões, aguentar gringo prepotente e metido a besta, enfim, voltará ao ninho com forte sentimento de dever cumprido, imensa experiência política nacional e internacional, muitos amigos e inimigos verdadeiramente leais, a gratidão da imensa maioria do povo e, conforme disse à Adriana Araújo, não meterá a colher no feijão de governo alheio.
Frustrando as previsões deste escriba, também não almeja a Secretaria Geral da ONU. Esse, o Lula que conhecemos nos anos 80, em São Bernardo do Campo. Franco, direto, emotivo e, acima de qualquer suspeita, bem brasileiro, para o pior ou o melhor.
Não se preocupe, Luiz: a partir de janeiro do ano que vem, se estiver enfadado e Dª Marisa não o aguentar em casa dando palpite em tudo, e não tiver mesmo o que fazer, pode convocar a galera, e serão muitos a acompanhá-lo a pescar tilápias na represa Billings, tomar uma cachacinha de alambique, falar muita bobagem e desfrutar das coisas boas da vida.
Sei não... Tudo leva a crer que não será por aí. Todavia, 'tá feito o convite.
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