Quinta, 02 de Setembro de 2010
Caio Martins

Editor e produtor gráfico, foi exilado político e jornalista da Rádio Berlim Internacional. Trabalha com edições técnicas e assessoria parlamentar. Mantém os blogs literários "Poemas e Crônicas" e "Prosa e Verso de Boteco". Publica matérias autorizadas pelos autores nesta coluna. No VB desde 2005.
29/01/2010 - 19h04
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Para Zilda Arns.
Alguém uma vez disse que o caminho do santo começava pelo passo da humildade. Que, como todo caminho, estava repleto de tentações para desviar quem quisesse trilhá-lo. Primeiro vinha o terrível e ameaçador Ego (melhor grafar ego, bem minúsculo, pra ir logo lhe tirando a força, pra ir desmoralizando essa instância mesquinha). O ego, para os que não sabem, ou ainda são ingênuos, está assim, digamos, entre os primeiros inimigos classificados por muitos místicos, e deve-se combatê-lo sem dó.
Mas um de seus maiores problemas é exatamente ter, quando o julgamos mortinho, a capacidade de ressuscitar disfarçado em coisas que são verdadeiramente o seu oposto, o que levava muitos discípulos do caminho espiritual a castigarem-se duramente com chicotadas ao descobrirem, pasmem, que estavam caindo na terrível cilada de terem orgulho de serem humildes.
Quando tinham um mestre mais vivido ou mais sábio, este poderia aconselhar o candidato aos altares a pensar em outras coisas: em fazer o bem, em trabalhar na horta, pois o resultado seria mais prático e benéfico do que ficar paralisado pelo medo de ter um Egão.
Nem pensar na possibilidade de um instrutor tarimbado afirmar que sem o monstro não se chega até a esquina, que ele é o agente do qual dependemos pra viver neste mundo caótico.Não, isto estava totalmente fora de questão, pois não pegaria nada bem.
Porém, o tempo passou, e parece que a vastíssima maioria das pessoas desistiu da santidade porque, com tanto jejum e provação, se morria muito de tuberculose, sem aproveitar nada da juventude e das coisas boas que a vida oferecia. Mas fazer o bem e cuidar da horta para matar a fome de quem tem e, principalmente, de quem não tem dinheiro, sempre foi visto com simpatia por todos ( por súditos, por fiéis e depois,muito depois, por eleitores ). Porque significava servir-se, mas também servir o próximo, o que dava uma popularidade muito grande à pessoa.
Mas havia situações privilegiadíssimas, nas quais voltava-se até a pensar na santidade. Tratava-se desses momentos nos quais alguma coisa especialmente ruim acontecia, como o desabar de um teto, o desmoronar de um barranco que vitimava algumas ou várias pessoas. Aí, o cidadão que oferecesse publicamente a sua ajuda, ganhava muita estima e respeito por ter um bom coração. Mas a estima dependia muito, não só do número de pessoas vitimadas na desdita, mas do número de pessoas que soubessem da ajuda.
Também era possível dar ajuda a um templo que, aí, sim, a visibilidade era grande, pois punham o nome do benfeitor no banco ou na parede. Bem junto dos santos, o que, convenhamos, não era pouca coisa. Já pensou, todo domingo as pessoas lerem os nomes de quem faz o bem escrito ali, para sempre ou até o templo cair? Pois templo também cai, não é?
Esse caminho acabou tendo muita preferência, pois lembrava bastante aquela idéia de santidade, mas com o lado prático de não exigir tanto da pessoa. Foi também um caminho muito trilhado para apaziguar a consciência e até para ganhar cargos de poder. Isto sem falar na eficácia que tinha em justificar muitas atitudes que seriam difíceis de entender, principalmente relacionadas a aspectos humanos demais dos que estavam nos cargos de poder.
Então, este acabou sendo o foco, o objetivo de quem desejava ser amado por todos numa aldeia, ou por multidões na capital. Mas tinha gente que exagerava, pois chegava a querer barrar aqueles que podiam ajudar mais que ela. Argumentava que isso era usurpar funções que estavam sendo muito bem exercidas antes de chegar outras pessoas com tanto aparato pra ajudar.
Chegavam a criar situações de verdadeiras saias justas diplomáticas, pois um país torcia o nariz para o outro, e ficava até zangado se parecesse ser algo menos que O Maior Ajudador de Todos. Numa situação dessas, só pedindo a ajuda dos santos de verdade, dos que nunca subiram em palanques, digo, em altares porque o trabalho era tanto para ajudar a humanidade, que nunca tiveram tempo de buscar notoriedade.
*Aracéli Martins é professora, psicoterapeuta e cronista do Prosa e Verso de Boteco.
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A coluna acima é de exclusiva responsabilidade do autor.
Evandro de Andrade B.
30/01/2010 - 20h57 | Brasília / DF
A Verdade de Araceli
Caio, grande amigo. Voce, como poucos, sabe levar aos nossos cerebros agasalhos para as nossas preocupações ,visto existir em todo poder poderes maléficos contra os seus semelhantes. E ao ler, vagarosamente seu belo comentario, meus pensamentos acompanhavam a grande revelação da verdade que Martim Lutero , trouxera para todas as religiões Cristãs ; Sua materia é digna de louvor e salutar aos sentimentos dos justos.Abraços E Salve a senhora Araceli. Evandro
Aracéli
30/01/2010 - 14h58 | São Paulo / SP
Coitado do Ego
Milton,
o coitadinho do ego não é o lado vilão. A gente precisa ver Onde Moram os Monstros de verdade.
Concordo Quanto aos beicinhos... Triste ver a Feira das vaidades ocupando o lugar da verdadeira consciência... A.M.
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Caio
31/01/2010 - 09h36 | São Paulo / SP
Autoria
Caríssimo Evandro,
sua gentileza é ímpar, coerente com sua nobreza de caráter. A matéria, todavia, não é de minha lavra mas, de minha irmã, a quem "emprestei" a coluna. Matérias há que gostaríamos de ter escrito e assinado: muitas das suas estão nesse naipe. Vão à autora suas palavras, e fica, para mim, a honra de tê-lo como amigo.
Forte abraço.