Quinta, 02 de Setembro de 2010
Caio Martins

Editor e produtor gráfico, foi exilado político e jornalista da Rádio Berlim Internacional. Trabalha com edições técnicas e assessoria parlamentar. Mantém os blogs literários "Poemas e Crônicas" e "Prosa e Verso de Boteco". Publica matérias autorizadas pelos autores nesta coluna. No VB desde 2005.
04/11/2009 - 19h57
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O que aconteceu há dias numa faculdade paulistana deixou uma sensação incômoda. A turba que partiu aos gritos e impropérios contra uma colega por estar vestida de modo inconveniente (??) acordou no espírito de muitas pessoas a necessidade de parar e pensar. Por que esses moços teriam perdido totalmente a capacidade de aceitar a jovem com uma roupa que consideravam imprópria para assistir às aulas? O que haveria de tão impróprio nesse vestido?
Nas fotos, após os fatos, o vestido pink chega a menos de um palmo acima dos joelhos. As mangas são longas. Claro que sabemos que a altura de barra e mangas são ajustáveis ao desejo de quem as usa. Mas numa época de tanta liberação, por que a revolta diante da roupa justa( nem tanto) e curta? Da beleza dos cabelos (chapinha) e dos olhos cuidadosamente contornados e sombreados? Claro que a moça fazia o estilo vestida para matar.
Mas o que mais espanta é a violência na desaprovação a uma roupa e estilo duvidoso, ao invés dos risinhos e comentários em voz baixa que sempre aconteceram nas escolas. Parece que, ali, a tampa da panela de pressão explodiu e entrou em cena o dinossauro mal acomodado por séculos de repressão. Os gritos pediam o estupro coletivo e a desqualificavam como prostituta. A sensação é que, se deixada à própria sorte, ela poderia ter um fim trágico.
Contra o quê protestavam os moços? Protestavam de fato? O que era aquela manifestação? Naquela escola acontecia algo além da chacota, da condenação pública ou da indignação. Algo se acendera como o estopim da bomba, bomba pink, bomba loira com todas as conotações que esses tons assumem na mente coletiva de hoje.
Loira seria um sinônimo de falsificação para atrair? Todas as loiras seriam burras, portanto desprezíveis naquela excelsa faculdade? E, portanto, poderiam receber todos os impropérios dos exemplares cidadãos e cidadãs ali presentes. Lembra a Geny, do Chico Buarque.
Na Folha de São Paulo de hoje, o colunista Ruy Castro fala das minissaias de 1967. Mostra a diferença do acolhimento masculino às colegas que vestiam a nova moda. Elas vestiam saias mais curtas do que a do vestido que provocou o fenômeno em São Bernardo do Campo. Posso acrescentar que podíamos ir à faculdade de salto alto e minissaia, se quiséssemos. E os colegas eram amigáveis , discutíamos idéias políticas e culturais e participávamos de debates acirrados. Íamos a assembléias universitárias, aos shows de compositores que questionavam a fundo a sociedade em que vivíamos. Namorávamos, fazíamos planos. Participávamos de passeatas de protesto político.
Seria interessante saber dos mesmos universitários que explodiram em uníssono contra um vestido pink na faculdade, sobre seu posicionamento quanto à ética política, a ética profissional e o desmatamento da Amazônia. Seria, também, interessante saber o que as associações estudantis ( ? ) de hoje fazem para agremiar a força jovem que regride, como parte imensa da sociedade, a níveis reptilianos de consciência.
Nessa explosão, tão noticiada na mídia, fica patente o fato grave de confundirem um símbolo com um signo e partirem para a ação contra ele. Demoniza-se um tipo físico, loira vestida para matar, punindo-a pelo desejo confuso de possuí-la e matá-la ( matar, nem que seja denegrindo e acabando com a imagem pública da pessoa). O que é a posse destrutiva se não a negação extrema do desejo de possuir o objeto que se condena?
O que se pode dizer desta situação dentro da faculdade em questão é que falta pensamento a seus alunos e sobra o que George Orwel classificou em seu livro, 1984, como “rebeldia da cintura para baixo”. Será que a faculdade em questão promoveu debates sobre os fatos que ocorreram em suas dependências? Salvo engano, ainda não. Os esotéricos diriam que, no episódio em questão, toda a energia vital só funcionou no chacra básico dos instintos primitivos.
A sociedade continua a comprar, consumir, treinar-se para ocupar cargos que dêem dinheiro para isso. E, só isso...
*Aracéli Z. Martins é psicoterapeuta.
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A coluna acima é de exclusiva responsabilidade do autor.
Milton Martins
05/11/2009 - 21h46 | Piracicaba / SP
Obscurantismo
Araceli, gostei demais do seu artigo sobre os evento em SBC, obscurantista e não sei não se há apenas uma conotação sexual machista nessa história...
Vc. Sabe que fomos dos tempos da luta e do debate. Hoje, todos nós protestamos por e-mail, sentadinhos, não saimos mais às ruas contra esses desmandos todos. O que pensam os jovens de hoje? Pouco, não se envolvem e não aproveitam a idade para expor idéias, empunhar bandeiras, lutar. Dão esses vexames, atos irracionais e grotescos. Que tempos!
Mit
04/11/2009 - 21h52 | Curitiba / PR
Parabens Pela Materia
Seja Bem Vinda . Retratou a realiadade em que vive os alunos de escolas brasileiras. Abraço MIT
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Lavínia Z
06/02/2010 - 23h18 | São Paulo / SP
Lindo!!!!
Que coisa boa! Quanta sutileza, delicadeza, entrega. Fiquei encantada. Olha que só li este ainda. Pra que se importar tanto com a exaltação hormonal da moça enquanto há tanto que se reformular na educação, há tanto que se rebelar contra poucas vergonhas reais deflagradas para uma sociedade um tanto apática, eis que no meio de tanta sujeira, uma cena considerada pura traz tanto furor. Eta Brasilzão.