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Caio Martins

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Caio Martins

Editor e produtor gráfico, participou da resistência ao regime militar, foi exilado político, correspondente e jornalista da Rádio Berlim Internacional. Trabalha com edições técnicas e assessoria parlamentar. Mantém o blog literário "Poemas e Crônicas", dentre outros.Publica matérias autorizadas pelos autores nesta coluna. No VB desde 2005.

12/08/2010 - 06h02

No tempo da dentadura...

... o incauto que fizer piada sobre o rei e a corte, pode sofrer no bolso, se não parar na cadeia, ou ter seu veículo de informação fechado...

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No tempo da dentadura...











“As armas e os barões assinalados

Que, da Ocidental praia Lusitana,

Por mares nunca dantes navegados

Passaram ainda além da Taprobana,

Em perigos e guerras esforçados

Mais do que prometia a força humana

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram; [...]”


Assim o jornal “O Estado de São Paulo” preenchia espaços censurados pela ditadura militar, nos anos 70. Botava o Camões a trabalhar pois acreditava que, enfim, “Os Lusíadas” deveria servir a fins mais edificantes que simplesmente puxar o saco do rei de Portugal de entonces, para que o vate pudesse retornar à terrinha, de onde fora proscrito. Porém, como diria Marx complementando Hegel, a história se repete, sim, às vezes como fase, às vezes como farsa. Considerando a troca dos militares pelos civis, exigida pelo sistema internacional para o pleno sucesso da fase da globalização, estaríamos, então, com a farsa em plena farra do boi? Pois que o incauto que fizer piada sobre o rei e a corte, pode sofrer no bolso, se não parar na cadeia, ou ter seu veículo de informação fechado...

Serão aproximadamente 500 milhões de reais para um espetáculo deplorável de “venda de benefícios” publicitários com os produtos devidamente empastelados e embotoxados falando a mesma língua e evitando, como o diabo foge da cruz, de tocar em “problemas” éticos e fundamentais. Esse dinheiro daria folgadamente para construir, por exemplo, 10 mil casas populares de boa qualidade. Não podemos, contudo, falar nisso. O acordão (não mostro o seu se você não mostrar o meu) para transformar o pleito 2010 em espetáculo midiático teve diploma legal tapando a boca de qualquer trombone. Pensamos seriamente em publicar, nesta coluna, o “Navio Negreiro” de Castro Alves na íntegra durante este período patético:

Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece,

Outro, que martírios embrutece,

Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,

E após fitando o céu que se desdobra,

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar!..."


Contudo, vivendo no País das Maravilhas, quiçá tal não se justifique, pois. Afinal, se quem tem memória acompanhou os fatos das catacumbas do reino que afloraram feito fungo depois da chuva, se os não apóia não deplora, não seríamos nós a meter dedo em ferida trombando com a voz do povo que, a cada círculo a mais da História, menos representa a voz de deus, qualquer que seja, em tempos do Cão chupando manga. Quem sabe, isso seja o tal “realinhamento histórico” proclamado por uma das candidatas, num pragmatismo insosso de vez que ideologicamente falta a política histérica de uma “direita” que se consumiu na cooptação nababesca de uma “esquerda” cujas únicas diferenças programáticas estejam relacionadas ao método de exercer o poder: vai com areia, ou vai com vaselina...

Nesta época em que os sorrisos políticos são meras dentaduras, próteses e postiços, e as bandeiras são cartas marcadas, ainda assim resta lembrar o velho e bom Castro Alves:

Existe um povo que a bandeira empresta

P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio... Musa... chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...


Em tempo: tudo a ver com os patrioteiros que feericamente vibraram o auriverde pendão da esperança, há um mês atrás, para a seleção de mercenários da legião estrangeira que perdeu o campeonato mundial. Sintomático, certamente.


Gosta de ler? Visite

http://caiovmartins.blogspot.com

http://prosaeversodeboteco.zip.net


(img: grupocontoecena-2010.)


A coluna acima é de exclusiva responsabilidade do autor.

Comentários desta Coluna

Clélia Helmann

13/09/2010 - 16h56 | São Paulo / SP

Mas Se Todos Estão Contentes

Mas se todos estão contentes

e nem pensam sobre o assunto

pra quê essa força pra levantar defunto

que impressione, horrorize, assuste?

Impressionados E assustados estamos nós,

que lemos o Fidel dizer e desdizer depois,

que vemos tiranos e tiranetes convencer com cacoetes

multidões com abdomen onde hovera cérebro,

entregando pensamento a Cérbero

em pedágio pra Passárgada

e feliz que nem pinto a ciscar no lixo

Caio Martins

12/08/2010 - 12h26 | São Paulo / SP

Paradoxos

Meu caro amigo Jorge Sader,

trombei feio com muita prepotência, prepotentes e salafrários em vários países, culturas e idiomas.

A abertura segura, lenta e gradual do fim dos anos 70 está se transformando na fechadura segura, lenta e gradual dos nossos tempos. Uma pela outra, temos o mesmo fenômeno: fascismo.

"Talvez" o cachorrão velho não possa mais morder, mas está para nascer quem o impeça de latir. Se com um mínimo de bom humor, melhor.

Abração, meu caro. Essa coisa vai longe...

Jorge Sader

12/08/2010 - 11h03 | Niterói / RJ

Estrepolia Respeitosa

Meu amigo Caio, depois desta fiquei vendo realmente o valor da experiência.

Sem Ofensas, consegue transformar um texto um tanto sinistro numa peça engraçada!

Parabéns!

Abraço Forte,

Jorge

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