Quinta, 02 de Setembro de 2010
Caio Martins

Editor e produtor gráfico, foi exilado político e jornalista da Rádio Berlim Internacional. Trabalha com edições técnicas e assessoria parlamentar. Mantém os blogs literários "Poemas e Crônicas" e "Prosa e Verso de Boteco". Publica matérias autorizadas pelos autores nesta coluna. No VB desde 2005.
05/10/2009 - 06h59
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"Si se calla el cantor... calla la vida..." (Horácio Guarany)
É raro encontrar alguém que coloque seu ser a serviço de todos. E mais ainda quem, ao fazê-lo, não se torne rígido pelas idéias que tem e intolerante com os outros. Amar as pessoas e todos os seres e suas incoerências é possível, para alguns, depois de uma longa vida de buscas, de tentativas e desvios, de perdas pelos caminhos.
Mas, existem aqueles que nascem com a alma aberta e uma compreensão que abarca a vida num abraço comovente. Comovente para nós, que vemos nesses seres a serviço, um caminho que fala de outras possibilidades de vida. São essas pessoas com a mão quente da amizade que têm o dom de nos fazer querer bem, de querer sentir da forma que elas sentem. Elas conseguem fazer brotar a certeza da compreensão só por estarem presentes a um lugar, só por realizarem o seu ofício.
Realizar o ofício tira você de cena e introduz o maior que você naquele lugar; e aquele lugar passa a unir a mente, o coração e o corpo da gente a um domínio maior e mais rico. Abre uma porta e uma janela para a vastidão do horizonte onde antes só havia uma sala fechada. Quem realiza esse ofício traz o fogo do sagrado para o mundo. A exigência dos seres de ofício está unida ao amor que professam. Quando trabalham, realizam o ofício de amar o mundo, celebram a possibilidade de encontro humano mais verdadeiro.
E partiu para sempre, neste domingo, 4 de outubro de 2009, nossa Mercedes Sosa, a que melhor representou esse amor.
Foi a voz ressoando como a voz dos povos das Américas invadidas pelo conquistador. Cantava em nome de todos os oprimidos e submetidos. Sua voz era índia, de todos os ameríndios que povoam e povoaram os três continentes. Dos que viveram pouco e mal, mas deixaram na terra uma força que impregna o continente e ressoa nas vozes amalgamadas em todos os ritmos latino-americanos: samba, cueca, cumbia, salsa, milonga, maculelê, moçambique, tango, toadas, candombe, ponto de capoeira; tudo lhe dizia da vida.
La Negra, como era conhecida, apresentou a América ao fazer inúmeras excursões pelo continente, levando os sons de todos os países, uns aos outros. Sua voz deu ressonância desde às chacareras argentinas até canções de Caetano, Chico e Milton. Europa e Estados Unidos renderam-se às batidas de seu tambor e ao timbre poderoso de sua voz. Voz que parecia surgir do fundo da terra, mas que subitamente adquiria entonações delicadíssimas, numa gama interpretativa de rara sensibilidade.
Nos anos de chumbo, auge das ditaduras latino-americanas, conseguiu dar sustentação à esperança, e diminuir a asfixia dos que não podiam falar. Foi como uma lufada de ar a dar voz e alento a quem mal respirava, num período de ameaças e medo. Mercedes com sua voz ressoando mundo afora, e as Mães da Plaza de Mayo circulando com cartazes com as fotos de seus familiares desaparecidos, foram símbolo da resistência de todo um continente.
Um presente da vida para quem a viu, para quem a ouviu na profundidade de canções que acordam para outros domínios. Sua caminhada pelo planeta foi como um jorro de ar e de liberdade. Ela não entrava em cena quando cantava; ia para o palco oficiar uma celebração da vida. Era sua própria verdade o tempo todo. Sem pose, sem artifícios. Uma força tão poderosa que fez a ditadura argentina prendê-la, junto com o público de um teatro lotado, só pelo temor do alcance de sua canção. Uma força imensa e libertária produzida simplesmente por uma voz, um tambor índio e um violão. Cumpriu o seu papel como uma sacerdotisa.
Assim foi ela, e assim seguirá seu legado libertário. Gracias, Mercedes! A ti, y a la Vida!
*Aracéli Zampronha é professora.
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