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Caio Martins

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Editor e produtor gráfico, foi exilado político e jornalista da Rádio Berlim Internacional. Trabalha com edições técnicas e assessoria parlamentar. Mantém os blogs literários "Poemas e Crônicas" e "Prosa e Verso de Boteco". Publica matérias autorizadas pelos autores nesta coluna. No VB desde 2005.

26/11/2009 - 18h50

Cerco, infiltração e aniquilamento

Da mesma maneira que não se sabe em que raio de buraco negro foi parar o dinheiro da Previdência Social, nada se sabe do destino das armas recolhidas nas campanhas oficiais do governo.

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Cerco, infiltração e aniquilamento

A fábrica de factóides e ilusões para todos os campos de atividade, neste País das Maravilhas, gerou monstrengos descontrolados. Alice, encarnando a República, prostituiu-se despudoradamente pelos becos obscuros da corrupção, sinistramente mal iluminados pela destruição sistemática de princípios e valores como ética e transparência na vida pública. O coelho, na pressa, segue comendo cru e o gato escafedeu-se nos meandros dos subterrâneos de uma política entendida como manutenção do poder, privilégios e benesses a todo e qualquer custo.

Ora, se o (péssimo) exemplo do desprezo por tais valores e princípios - representado pelas Leis - vem de cima, que esperar do resto? Que a Divina Providência ilumine e o povo, assim ungido, caminhe em cânticos para a Terra da Promissão, penitenciado de seus pecados passados, presentes e futuros? A questão é que o crime, em todas as suas modalidades, domina a sociedade e lhe impõe cerco atroz, perene e inexorável. Ao mesmo tempo, esparrama-se como um câncer em todos os segmentos, num processo de infiltração eficiente e muito organizada.

Em decorrência da estratégia de desarmar a população de bem, via Lei 10.826 (Estatuto do Desarmamento) e diplomas complementares, a fase é de aniquilamento, isto é: qualquer canalha invade qualquer lugar e ataca qualquer coisa (inclusive, e cada vez mais, com armas de guerra), rouba, barbariza e mata sabendo que em pouco tempo estará de volta às ruas (se e quando pego) graças às legislações “humanitárias” que favorecem os agressores e punem as vítimas pelo simples fato de ignorá-las ostensivamente. O Estado ausenta-se, omisso.

Viramos “tauba de tiro ao árvaro” (como diria o lírico Adoniran Barbosa) e “nunca dantes, na história deste país” (sic!), houve tantas armas nas ruas, de todos os tipos e calibres, nas mãos do crime como depois da imposição do famigerado Estatuto e do recolhimento do arsenal em mãos de particulares honestos. Da mesma maneira que não se sabe em que raio de buraco negro foi parar o dinheiro da Previdência Social, nada se sabe do destino das armas recolhidas nas campanhas oficiais do governo. Uma coisa, repetimos, é evidente: desde a vigência da Lei 10.826 a circulação de armas e munições nas ruas aumentou assustadoramente.

Como falamos do país do Faz de Conta (ou do “me engana que eu gosto”), não poderia ser diferente, e se a correlação entre consumo, tráfico de drogas e crimes de todos os tipos é cartesiana, nada a estranhar da atitude dos defensores da descriminalização das drogas, “leves ou pesadas”, e defesa dos “pequenos traficantes”... Qualquer policial novato sabe que quem alimenta o crime organizado é o viciado, via pirâmide de mando do tráfico. São, assim, tais arautos da liberação geral (que também o são do desarmamento da população de bem) cúmplices do crime.

Criminosos muito mais daninhos que os celerados que, armas de origem duvidosa na mão, praticam toda sorte de barbaridades contra a população honesta. O PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania - colcha de retalhos de inúmeras idéias e iniciativas internacionais, mal digeridas pelos especialistas caboclos), lançado com pompas e festejos dignos de eventos constitucionais, não mostrou para quê veio. Não pode. É peça publicitária, eleitoreira e anestésica, no mesmo trote da Lei 10.826. A ineficiência deve-se ao desinteresse em resolver a questão ou, pelo menos, neutralizar a criminalidade.

Não há policiamento preventivo sistemático nas periferias e regiões críticas. Não há trabalho integrado de inteligência para o mapeamento de organizações, pessoas e instituições criminosas. Não há valorização integral suficiente do trabalhador policial, seja quanto a salários, seguros, treinamento e quejandos, ou organização sistematizada do sistema penitenciário, ou - e principalmente - a integração da cidadania de bem com os organismos de segurança do Estado, o tão propalado e agonizante “Policiamento Comunitário”.

Tal falta de vontade política não pode ser, ante os infinitos fatos gravíssimos dos últimos anos e noticiados diariamente, meras irresponsabilidade e incompetência. Aí tem coisa. E muito feia, para desgraça dos que estamos sitiados.


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