Quarta, 08 de Fevereiro de 2012
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Caio Martins

Editor e produtor gráfico, participou da resistência ao regime militar, foi exilado político, correspondente e jornalista da Rádio Berlim Internacional. Trabalha com edições técnicas e assessoria parlamentar. Mantém o blog literário "Poemas e Crônicas", dentre outros.Publica matérias autorizadas pelos autores nesta coluna. No VB desde 2005.
14/07/2010 - 20h34
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Sergei Tschachotini, em ”A mistificação das massas pela propaganda política”, define (cartesianamente) quatro etapas da tomada “branca” (sem sangue, ou pelo menos pouco) do poder: penetração, expansão, decisão e consolidação. Na primeira, arregimenta-se o “povo” para aceitação da doutrina. Na segunda, difunde-se ao máximo as concepções para provar que tudo de ruim é obra do inimigo, tudo de bom é arte da doutrina. Na terceira, ante o poder, criar-se-ia clima eufórico dos partidários, sob promessas de uma “idade de ouro”, e de pânico dos adversários. Consolidação, quarta etapa, é quando o líder messiânico e seus jagunços podem até marcar gol contra e são delirantemente aplaudidos pelo tal do “povo”.
É a ditadura de um partido e satélites encarnada em líder milagroso, o cerco e aniquilamento dos adversários, opositores e inimigos, enfim, falamos de fascismo. Projeto infame e pérfido que já resultou num cordão totalitarizante cercando o Brasil, honrosa exceção feita à Colômbia, e à fronteira norte. O alvo principal é a imprensa, desde os primeiros momentos até a terceira etapa pois, na quarta, será substituída pela mídia governamental única. Esse esquema clássico está em andamento, como nunca dantes na história deste país, neste país. Todos os outros projetos ditatoriais deram-se na base da porrada, esse é como metástase: silencioso e mortal. O desarmamento da população de bem é a garantia.
A recente tentativa frustrada de “censura” das edições televisadas do Senado no período noturno foi mais um passo nesse caminho. Temos uma sequência, portanto: domínio da imprensa, controle dos outros órgãos do Estado incluindo o Judiciário, desarmamento da população de bem, liberdade ampla, geral e irrestrita para a corrupção e o crime, seja o “sujo”, seja de colarinho-branco. A imprensa em geral e os meios de comunicação do Senado impediram que já estivéssemos como Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai, Uruguai e Argentina. As oposições, mesmo que massacradas, peitaram os arroubos totalitários do Executivo nos últimos sete anos e meio com coragem e determinação. Denunciaram, impediram a maioria das manobras.
Para estas eleições “pasteurizadas” temos o cenário de um Estado aparelhado, provedor de instituições aparelhadas. A candidatura governamental retirou rapidamente de seu programa de governo as teses de proteção a invasores de propriedades e outras pérolas “polêmicas”, contidas no solerte PNHD-III (Plano nacional de derechos de los hermanos?), tradução livre do que já foi imposto nos países autodenominados “bolivarianos” (sic!). Com o Presidente viajando pela África, visitando países amigos (inclusive a Guiné Equatorial, ditadura com 30 anos de arbitrariedades), a candidata Dilma Rousseff teve de se virar sozinha, de aí as recentes lambanças de seus assessores de campanha.
Some-se a isso não ter sido possível levantar o caneco da Copa (perdida pela legião estrangeira e seus mercenários), levar cascudos internacionais por visitar e posar para a foto com ditadores, o Presidente Luiz Inácio da Silva volta à cena do pleito eleitoral com Lula de mau humor, sem falar dos inefáveis rasputins-top-top de plantão que o cercam. Veio com tudo, como é do seu estilo. Sabe que pode marcar gol de mão, gol contra, sarrafar o juiz que o “povo” o aplaudirá, sem que tenha de prometer ficar pelado no monumento a JK, em Brasília. Os fundamentos das etapas 1, 2 e 3 do poder absoluto foram cumpridas parcialmente, a 4ª é cruel dúvida visceral. Perdendo as eleições, resta fazer do governo sucessor um inferno. E farão.
A concorrência faz sua campanha passo a passo, tendo mais trabalho com os aliados que com os adversários: o personalíssimo Aécio saiu-se com um “ou eu, ou o dilúvio” na proposta para vice, o Dem teve de caçar um papagaio de pirata de última hora, de vez que nenhum de seus próceres aceitou entrar de mala e cuia na refrega. Fora, evidentemente, ter comprado a briga de “alfinetadas” ridículas que, mais uns dias, se transformará em porrada pura e o pé mais baixo será na testa. Estão articulados, conseguiram apagar incêndios indesejáveis e Serra, se não respira ainda aliviado, também está pronto para a pancadaria. A campanha mais cara jamais vista na história deste país não lhe garante, todavia, a vitória.
Dados lançados, temos de um lado a continuidade de um projeto de poder absoluto e, do outro, a continuidade de um projeto econômico e social democrático iniciado lá atrás, com o conspícuo Itamar Franco. A única diferença ideológica é a questão estratégica do poder: tal projeto com democracia, ou tal projeto com autoritarismo, mesmo que travecado? Mas, insistimos repetitivamente... e o tal do “povo”?
Não está nem aí com a cor da chita, quer mesmo é zoar na vuvuzela...
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